«Porque me haveria eu de preocupar com a posteridade?», dizia Marx (não o Karl, mas sim o Groucho). «O que é que posteridade alguma vez fez por mim?». Efectivamente, até se pode achar que não merece a pena andarmos a apoquentar-nos com o futuro pois ocorrerá, e que mais valia acabar depressa com petróleo e determinados recursos naturais para que os racionamentos deixem de inquinar as nossas existências. Essa perspectiva grassa bastante nas elites, e entende-se, mas também se encontra implicitamente em muitos dos nossos contemporâneos. A via do decrescimento assenta numa premissa inversa, partilhada pela maioria das culturas não ocidentais; por mais misteriosa que seja, a vida é uma dádiva maravilhosa. É certo que o homem tem a faculdade de a transformar num presente envenenado, inclusive desde o advento do capitalismo nem sequer se tem privado de o fazer. Nessas condições, o decrescimento constitui tanto um desafio como uma aposta. Um desafio perante as mais arreigadas crenças, porque esse slogan surge como uma provocação insuportável e uma blasfémia para os adoradores do crescimento. E uma aposta, porque nada se afigura menos certo para a realização necessária do projecto escolhido, pensando numa sociedade autónoma de sobriedade. Vale contudo a pena aceitar o repto e tentar a aposta. A via do decrescimento consiste quer na resistência quer na dissidência perante o rolo compressor do processo de ocidentalização do mundo e do totalitarismo rastejante da sociedade de consumo globalizada. Quando os objectores do crescimento entram na clandestinidade e, a par dos Ameríndios, procuram trilhar caminho nesta luta, estão a apontar para a construção de uma civilização de sobriedade escolhida, alternativa ao beco sem saída da sociedade do crescimento, e contrapõem-se ao terrorismo da cosmocracia e da oligarquia política e económica, recorrendo preferencialmente a meios pacíficos: a não-violência, a desobediência civil, a defecção, o boicote e, claro, às armas da crítica.
A definição de um “rumo” para um país depende, em democracia, da conjugação de esforços de um povo e dos seus dirigentes. Mas também do legado, formado pela história e o património; assim como da circunstância interna e externa. Nenhum país é hoje totalmente livre (se é que algum dia foi...) de definir o seu rumo. Mas tem sempre, apesar de condicionado, uma margem de liberdade de escolha. Actualmente, em Portugal, o legado é conhecido e as circunstâncias identificadas. Ausente é a definição, largamente aceite, da vontade do povo e dos seus dirigentes. Será talvez este um dos aspectos mais salientes da crise contemporânea.
"Quais as consequências dos avanços tecnológicos e da ideologia de uma sociedade capitalista de consumo sobre a prática médica em geral e a relação médico-doente em particular? Que tipo de situações-limite e alteração de papéis obrigaram o Juramento de Hipócrates a "pedir o auxílio" da Bioética? Estará a Medicina Ocidental a tornar-se a herdeira de vários "ismos" e da Tradição Judaico-Cristã, transformando-se num sistema moral que responsabiliza o doente pelas suas maleitas e substitui o conceito de pecado pelo de estilo de vida desaconselhável? Não será estranho que se multipliquem os apelos por uma humanização da Medicina? Outras tantas razões para a pensarmos. Sem drama ou auto-flagelação, mas certos que a palavra crise não tem uma relação monogâmica com os mercados...".
Duas lógicas maiores caracterizam a nova fase da modernidade: o hiperindividualismo e o hiperconsumo. São ambos princípios que se inter-relacionam de diversas formas; o consumo desenfreado nutre paixões individualistas cada vez mais encarnadas pelo frenesim da aquisição de novidades e diversões. Como pensar então o futuro destes dois princípios basilares?
A dinâmica desencadeada no século XVIII (primeira revolução individualista) é levada até ao seu extremo. Nas mais variadas partidas do globo, assiste-se a um crescente processo de individualização pautado pela desagregação de enquadramentos colectivos, por paixões de autonomia subjectiva e pela desmultiplicação de modelos de existência, cada qual remete para a responsabilidade do próprio e subsequente realização pessoal. O casamento, a fecundidade, as migrações transfronteiriças, as novas formas de religiosidade, entre outros, configuram fenómenos que contêm feições de individualização, o elemento potenciador da destradicionalização. Desde logo, aquilo que está em andamento não será propriamente uma «guerra das civilizações», mas antes versões múltiplas de uma mesma cultura-mundo que se alicerça no capitalismo e na tecnociência, no individualismo e no consumismo. Trata-se de um movimento de convergência cultural que não é minimamente sinónimo da erradicação de guerras entre as nações.
O consumismo parece estar preso a um mesmo destino planetário. Poderá a crise económica e ecológica que vivemos prenunciar o termo do hiperconsumo? Seja qual for a gravidade dos problemas que comporta, a sociedade do hiperconsumo apenas vai nos seus primórdios, inclusive o cenário mais provável é poder alastrar à escala do planeta numa época em que nem sequer dispomos de um sistema alternativo credível. Em boa verdade, apenas estamos a começar a assistir ao fim da era do hiperconsumo irresponsável, devorador de energia não renovável e poluente. Nem as inevitáveis transformações que se vislumbram (menor desperdício, energias limpas, eco-consumo) significam o advento de uma cultura pós-consumista. Na melhor das hipóteses haverá que desenvolver um hiperconsumo sustentável.
Vai-se consumindo mais e mais ainda, em toda parte e a qualquer hora. Nada parece pôr cobro à mercantilização quase total dos modos de vida nem à nossa neofilia frenética. O estado de coisas prossegue porque num universo de desorientação generalizada onde o isolamento de estares e mal-estares se acentua, o consumo vem compensar os nossos sentimentos de incompletude. O advento de uma nova cultura da frugalidade é da ordem do mito.
Entre culto do presente e medo do futuro, entre fechar-se sobre si próprio e valorizar a solidariedade, entre consumismo e comunitarismo, ora se desenha um indivíduo paradoxal, ordenado e controlado, ora um indivíduo caótico, desestruturado expressando o desgoverno do eu e a impotência subjectiva As margens de manobra dos Estados perante o mercado são fracas, ao invés nessa dimensão dicotómica do indivíduo ainda sobram meios de acção.
O individualismo que trilha caminho não rima necessariamente com egoísmo: se um certo pendor da hipermodernidade leva a um individualismo irresponsável, outro aponta para um individualismo responsável. O devir das nossas sociedades dependerá intrinsecamente do estado de conflito entre estes dois individualismos e o que dele «faremos». O individualismo hipermoderno não é uma maldição, trata-se sim de um desafio para o século XXI. Repto que exige avultados investimentos no saber e em novos modos de regulação colectiva, de gestão de empresas e de educação dos jovens.